Padaria em São Paulo é algo íntimo e popular – uma espécie de sucursal da cozinha ou da sala de jantar. E movimenta paixões. Quem vive aqui tem, certamente, a sua padaria preferida. Por que, afinal, as padarias souberam reinventar-se com tamanho sucesso?

O espírito indômito dos irmãos lusitanos transformou, no entanto, a ameaça em oportunidade e fez a reinvenção da padaria.

Helvio Falleiros

Padaria em São Paulo é algo íntimo e popular – uma espécie de sucursal da cozinha ou da sala de jantar. E movimenta paixões. Quem vive aqui tem, certamente, a sua padaria preferida. Na verdade, a preferência é mais generosa e pode ser por bairro, especialidade ou estilo. As padarias estão em alta, como nunca.

E pensar que elas estiveram ameaçadas havia pouco tempo. A suspeita era a de que as “padocas” não resistiriam ao assédio dos supermercados, que passaram a produzir e a vender pães, e das lojas de conveniência, que são um tipo de minipadaria. O espírito indômito dos irmãos lusitanos transformou, no entanto, a ameaça em oportunidade e fez a reinvenção da padaria.

A peça de resistência continua sendo o pão em suas infinitas variações de estilo, receita, formato, ingrediente. Foi mantido o mesmo espírito de acolhimento, propício à amizade, ao bate-papo descontraído, que dá início ao dia ou marca o seu final. E muita coisa foi acrescentada. Novos bolos, sopas saborosas, pizzas, refeições completas, sanduíches especiais…

Esse conjunto de ingredientes passou, nas últimas duas décadas, por uma reconfiguração. As velhas padarias foram remodeladas. Passaram por retrofit, na expressão dos arquitetos. E ganharam novas instalações, novos materiais, mais modernos, elegantes até. Balcões de alumínio e vidro. E assim a velha padaria ressurgiu das cinzas e prosperou, como prosperou!

Cada padaria modernizou-se a seu jeito, encontrando o seu nicho, preservando e ampliando a clientela.

Helvio Falleiros

Os donos seguem à frente, de olho no gosto do cliente, na movimentação dos consumidores e dos funcionários, atentos ao tilintar da caixa registradora. Isso não mudou. Estão lá, todos os dias, o “seo” Joaquim e a dona Fátima, acompanhados agora pela segunda geração e por uma legião de trabalhadores “importados” do Nordeste. É verdade que agora eles têm casa na praia, no campo, e uma vida muito confortável. Os dias ruins ficaram na história…

Essa breve história do “pão e prosperidade” em São Paulo está aqui a propósito de uma reflexão específica. Por que, afinal, as padarias souberam reinventar-se com tamanho sucesso? O fator mais importante é a compreensão acerca da ‘alma’ do cliente. Não se trata apenas do comportamento do cliente. Intuitivamente, a legião de monoeis e joaquins soube compreender algo mais profundo sobre a sua clientela.

As pessoas queriam algo mais moderno, mais bonito, mais confortável, mais variado. Mas queriam preservar a essência da padaria – o acolhimento, o cheirinho, o sabor, a conveniência, o ambiente favorável ao bate-papo e à amizade. Bingo!

O exemplo das padocas de São Paulo precisa ser avaliado com lupa por todos os que atravessam momentos difíceis.

Helvio Falleiros

O interessante é que se trata de um movimento geral, envolvendo progressivamente (quase) todas as padarias. Dentro dessa grande movimentação, é importante reconhecer, por outro lado, o que há de específico em que cada reinvenção. Cada padaria modernizou-se a seu jeito, encontrando o seu nicho, preservando e ampliando a clientela.

O exemplo das padocas de São Paulo precisa ser avaliado com lupa por todos os que atravessam momentos difíceis. E estamos todos entrando hoje num desses momentos. Não esmorecer, não desanimar e estar muito afinado com a ‘alma’ do cliente são atitudes fundamentais para enfrentar e vencer a crise. As padarias venceram. E estão preparadas para o que der e vier. Navegar é preciso!

Helvio Falleiros – Strada Comunicação

Imagem: SafakOguz/iStock.com

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