Assim como o prestígio do ministro Mandetta, cresceu também o prestígio da imprensa, em tempos recentes tão maltratada e vilipendiada. Jornais, em versão impressa ou digital, são mais lidos a cada dia, enquanto explode a audiência dos telejornais. As pessoas estão ávidas por entender a pandemia. E ninguém explica isso melhor do que o bom e velho jornalismo, que está aí prestando serviços relevantes neste momento difícil.

Mesmo aqueles que pedem a volta ao trabalho fazem isso fechadinhos dentro de seus carros, com o álcool em gel ao lado, pronto para ser usado, mostrando que entenderam a lição. Cresceu também a consciência quanto ao papel terrível que desempenham algumas pessoas e grupos nas redes sociais, no WhatsApp, espalhando fake news e idiotices sem fim.

Quando está em risco a saúde, as pessoas abandonam essas redes de falsidades e aderem gradualmente aos meios tradicionais que buscam, profissionalmente, fazer o que se chama de curadoria de notícias, elaborando reportagens segundo as melhores técnicas jornalísticas, separando o joio do trigo, a mentira da verdade factual. Há erros, claro. E os próprios veículos de comunicação policiam-se reciprocamente.

Junto com o prestígio do Mandetta e da imprensa, cresceu também a reputação da ciência, igualmente desprezada em tempos atuais. A ansiedade de todos é saber quando virá a cura. Quem irá descobrir o remédio salvador? E a vacina? Não virá das igrejas, pois não é este o papel delas. Não virá dos gabinetes de Brasília.

É momento de consertar os furos, salvar gente, preservar a vida de médicos e enfermeiros, de idosos, de pobres e ricos.

Virá inexoravelmente da ciência. São os cientistas que poderão salvar o mundo da pandemia e nos libertar da prisão domiciliar. Virá dos pesquisadores espalhados por vastas regiões do mundo. Virá, quem sabe, dos pesquisadores brasileiros, cujo trabalho nunca foi tão desprezado como hoje. Os centros de pesquisas estão sem verbas. Os pesquisadores, sem recursos, abandonados a sua própria sorte. As universidades viraram alvo de chacota e agressões gratuitas por parte daqueles que deveriam defendê-las.

Isso me fez lembrar a “Geni”, de Chico Buarque. Mulher da vida, desprezada, vilipendiada pela sua comunidade, que, num determinado momento, aparece como a única pessoa capaz de salvar a vida de todos. Mal comparando, assim estão hoje os cientistas brasileiros, incluídos aí os médicos, os sanitaristas, epidemiologistas e todos aqueles que estão na linha de frente do combate à pandemia. Antes deixados de lado como cadeira quebrada, agora eles são chamados a nos salvar.

A vida é maior que a peste e nos dá agora uma oportunidade excepcional, ainda que inserida numa narrativa trágica, de rever os nossos passos.

Sim, é verdade que muitos brasileiros não compactuaram com esse desprezo à ciência e ao jornalismo. Muitos entre nós mantiveram o respeito à ciência e aos cientistas. Muitos de nós seguiram as condicionantes da razão e preservaram a sensibilidade para com o sofrimento alheio. Mas, de alguma forma, a sociedade brasileira embarcou nessa canoa furada.

É momento de consertar os furos, salvar gente, preservar a vida de médicos e enfermeiros, de idosos, de pobres e ricos. É hora de reconhecer a importância do Sistema Único de Saúde, o SUS, que é e será essencial para ajudar a população brasileira a livrar-se da peste.

Se é necessário seguir adiante, é imprescindível refletir ao mesmo tempo sobre o erro cometido, o passo mal dado. Chegamos a esse estado de coisas em parte (exceto pela pandemia) caminhando com nossas próprias pernas. Ninguém nos atirou nesse buraco sem fundo. Pulamos nele por vontade própria.

Nosso desafio agora é sair dessa draga unidos aos nossos semelhantes. Solidários. Pois a vida é maior que a peste e nos dá agora uma oportunidade excepcional, ainda que inserida numa narrativa trágica, de rever os nossos passos.

Haveremos de superar erros com contrição, reflexão e vontade, alimentados por sentimentos genuínos de misericórdia e perdão. Pois como ensinou João Gilberto, “é preciso perdoar” – a nós próprios e aos outros.

Um abraço,
Helvio Falleiros
SP. 4 de abril de 2020

(Imagem: fotojog/iStock.com)

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