A pandemia terá força suficiente para explodir as fronteiras e as bolhas dentro das quais vivemos todos sem disso ter consciência? Essa força será capaz, afinal, de resgatar a nossa humanidade comum?

De forma chocante, estamos sendo obrigados a compreender, subitamente, que habitamos todos o mesmo planeta, respiramos o mesmo ar, adoecemos da mesma peste, que, brutalmente, nos fez ver a incrível fragilidade de nossa vida, de nossos hábitos tão arraigados. Mostrou-nos que não temos o controle das nossas vidas e que ninguém tem o controle da vida no planeta. Ninguém está no controle. A vida é imprevisível.

Sabíamos em alguma medida disso tudo. Mas, sinceramente, não sabíamos de verdade. Vivíamos dentro da bolha – na fronteira de cá, onde os males não nos alcançariam, onde estaríamos protegidos do desgoverno, onde tínhamos o plano de saúde certo que nos protegeria da doença.

Sim, porque ninguém será poupado dos efeitos dessa pandemia que nos afeta de modo nunca antes imaginado. Haverá, sim, os que sofrerão mais. Os profissionais de saúde. Os idosos. Os pobres, sempre eles. Mas ninguém passará incólume por essa provação. O sofrimento será inevitável.

Diferentemente de outras situações difíceis, que nos induziam a buscar o apoio recíproco, desta vez fomos deixados rigorosamente a sós. Uma solidão que nos foi imposta. Inexorável. E nós, que caminhávamos distraídos e ausentes, somos repentinamente jogados diante do espelho, nós que há tanto tempo não privávamos dessa intimidade.

Não nos desesperemos, contudo. Haveremos nesse momento de resgatar a criança que fomos um dia. Aquele menino, aquela menina com um olhar de esperança para o mundo, um olhar solitário, que via, registrava e não pensava tanto, que sentia sem reconhecer que sofria, que brincava e era feliz sem saber. A mão dessa criança que fomos haverá de nos conduzir hoje por esse labirinto, haverá de nos conduzir para a saída.

A solidão compulsória pode, por outro lado, ser uma experiência excepcional, um espaço aberto para o autoconhecimento. Um tempo para que possamos refletir fora das bolhas em que estamos metidos. Bolhas ideológicas, políticas. Bolhas sociais, comportamentais, familiares. Hábitos arraigados. Rotinas inúteis, aprisionantes. É um tempo propício para, quem sabe, a reinvenção da própria vida. Por que não?

Revisitemos agora nossas paixões artísticas, musicais e literárias. Aquela música, aquele autor, aquela obra, aquele quadro, peças que um dia nos deram ensejo a inesquecíveis epifanias. Aproveitemos o momento para dedicar atenção aos livros que um dia prometemos ler e para os quais nunca tivemos tempo. A arte, definitivamente, é outra aliada de nossa solidão compulsória.

O maior desafio de todos nós é, no entanto, sair dessa pandemia com uma compreensão mais profunda de que somos viajantes solidários deste lindo planetinha azul. Ou nos salvamos todos ou adoecemos todos.

Não há fronteira, bolha ou plano que nos proteja individualmente. A solução é coletiva. O ar é de todos. A floresta é de todos. O vírus também. Não há “nós e eles”. Não há santos nem demônios. Somos nós. E estamos sós. Aproveitemos a vida hoje.

Helvio Falleiros
SP. 21/3/2020

Imagem: ipolonina/iStock.com

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